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sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Nauro Machado

POESIAS DE NAURO MACHADO



Apenas uma Coisa


Existe amor?
Palpável como o dia,
como a matéria com que é feito o objeto 
chamado mesa, catedral ou baço 
nitrindo em tantas coisas?

Como amar
esta incorpórea substância carnal, 
este lampejo de chão no infinito? 
Existe amor?

Palpável como a terra? 
Debaixo ou sobre a terra, ainda carne, 
algum finado saberá do amor, 
essa chama votiva a brilhar ainda? 
Amou Torquato a Maria? Amou deveras? 
Digam-nos os anjos corcundas do além, 
a ave agoureira ao céu crucificada, 
o revoar de asas na papal coroa.
Amou Torquato a Maria, ainda carne? 
Ama Maria a esse pó apenas nome 
legado aos filhos como letra morta, 
como moeda gasta em mão mendiga? 
Chupando um dedo só, o amor se alimenta.





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Como te massacraram, ó cidade minha!
Antes, mil vezes antes fosses arrasada 
por legiões de abutres do infinito vindos 
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio 
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios), 
a seres, ó cidade minha, pária da alma, 
esse corredor de ecos de buzinas pútridas, 
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro, 
que sem destino certo, exceto o do destino 
cumprido por estômagos de usuras cheios, 
por bailarinos bascos sem balé nenhum, 
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos, 
por úteros no prego dos cachos sem flores, 
por proxenetas próstatas de outras vizinhas, 
ou por desesperanças dos desenganados, 
conduzem promissórias, anticonceptivos, 
calvos livros de cheques e de agiotagem, 
esses lunfas políticos que em manhãs — outras 
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas, 
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver. 
Se Caim matou Abel e em renovado crime 
Abel espera o dia de novamente ser 
assassinado em cunha de rota bandeira, 
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer 
da terra podre e azul de água e cotonifícios? 
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas 
de sapatos humanos mendigando pés, 
de vestidos humanos mendigando peitos, 
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia, 
blasfemam as fanfarras de súbito mudas 
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.





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O Parto


Meu corpo está completo, o homem - não o poeta.
Mas eu quero e é necessário 
que me sofra e me solidifique em poeta, 
que destrua desde já o supérfluo e o ilusório 
e me alucine na essência de mim e das coisas, 
para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro, 
trazer-me à tona do poema 
com um grito de alarma e de alarde: 
ser poeta é duro e dura 
e consome toda
uma existência.





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Maldita a vida me seja, 
três vezes maldita seja 
a vida que me desastra 
e que por ser-me finita, 
três vezes seja maldita 
e amaldiçoada madrasta.

Quem me fez como um qualquer, 
dormindo aonde estiver, 
saiba deste desprazer, 
para sempre e desde saiba, 
para que o seu Ser não caiba 
na pequenez do meu ser,

que eu não pedi para estar 
com minhas pernas no andar, 
com minha emoção a sentir 
este universo que tapa 
a minha boca num tapa 
e a minha língua sem Ti,

essa coisa que fede a iodo, 
como a água do mar ou do 
envelhecimento o rim, 
essa coisa que derrama 
seu púbis velho de chama 
a extinguir-se quase ao fim,

corpo de Deus! Corpus Christi! 
Viste-O algum dia? Tu O viste 
sequer um dia como tu? 
Integral e à dor exposto, 
desde o cio ao suor do rosto, 
desde impotente até nu?

Os meus membros são crepúsculos! 
São sangue e iodo os meus músculos, 
é iodo e sangue a minha cruz. 
Por que não nasci não sendo? 
Por que, ao amanhecer, acendo, 
noutra treva, cega luz?

Se além da terra existe ar, 
se além da terra ainda há 
por menor que seja, um seja, 
como à noite volta o dia, 
como, ao corpo, o que o procria, 
como, em mim, meu ser esteja!

Dentro ou fora, qual gaveta, 
para que, em mim, o ser meta 
quem, em mim, é este meu ser, 
olho, em volta, à minha volta, 
e olho nada — só o que solta 
de qualquer um: quem ou o quê?

Nada é, pois tudo se sonha. 
E se alguém me falar: ponha 
tudo o que lhe resta, e resta 
no que, ao pôr-se, se me põe, 
para que em mim meu ser sonhe, 
vivo morto — e a morte empesta!

Como dar à vida pôde 
o nada ser que sou de 
outro feito pelo ser?
De outro ser, igual a mim,
mas de outro início a outro fim, 
noutra vida até morrer?

Ó envelhecer do meu estar! 
Da leitura de Balzac, 
de La Comédie Humaine, 
se passaram tantos anos 
nos malogros desenganos, 
sem disfarce ou mise-en-scène.

Bela Eugénie Grandet:
sois lembrança a anoitecer 
pelas tardes do meu Carmo, 
quem me traz a quem não sou 
na usura do pai Goriot 
que me a mim dá, para dar-mo

no meu duplo a ser mais dois, 
quais búfalos que são bois, 
ao mar meu a ser mais mar de 
ontem que ao ser-te, alma, foi-te, 
nas noites que são mais noite, 
nas tardes que são sem tarde.

Só me lembro das andorinhas, 
que hoje são luas-vinhas 
que iam e vinham às seis, 
só me lembro das sequazes 
na imprecisão de alguns quases, 
na distância de vocês!

Róseas ruas da memória, 
róseas ruas hoje escória 
que a soçobrar mais me sobe, 
afundai-me na lembrança 
hoje cravos da criança 
que meu cadáver descobre.

Como, à noite, acendo a lâmpada, 
para imitar (rampa da 
noite) uma inútil manhã, 
como o como que mais como, 
assumo, na idéia, o pomo 
da primitiva maçã.

Assumo o dia original.
Nascimento à morte igual, 
nascimento em morte assumo 
nesta página onde, em branco, 
minha vida inteira arranco 
do nada em que subi. E sumo.

E sumo a sós. Mas prossigo:
"na idéia é bem maior o trigo
que na boca o próprio pão, 
na idéia janto a sós, comigo, 
o pão real que mastigo 
feito de imaginação".

Azul manhã em contumácia! 
Negra noite, azul, te amasse 
a idéia sem pensamento, 
te amasse a própria Idéia 
reduzida a uma hiléia 
sem ar, floresta, rio, vento.

Locador de um condomínio 
frustrador de um hímen híneo, 
frustrador de um hímem são, 
locador que loca um louco, 
de carne e ossos sou reboco 
deste barro em maldição.

Tudo é farsa, menor dor. 
Sou, em mim, o que me sou 
desde o ventre que me fez. 
E contemplo a arraia, e raia 
dela, como de uma praia, 
a noite toda. Ei-la aqui. Eis:

andaime, sucata, ferro, 
vagido, vagina e berro, 
viatura e papelório, 
passa tudo, e é a viatura 
conduzindo à sepultura
meu ser morto. E sem velório.

Pois viu a terra e além bebeu-a, 
pois viu o tempo e disse: é meu, à 
solidão cerzindo a roupa 
onde, se me dispo, visto 
o sexo nu de algum Cristo 
que, despido, não me poupa.

Dez anos de coito cego 
são as metáforas que lego 
à solitária da escrita, 
aonde não chega ninguém 
exceto o vazio que vem 
de uma montanha infinita.

Ao ouvir da tarde: fracasso!, 
conquanto, vergando, os braços 
dissessem: pára, enfim finda! 
e morre, ó alma desgraçada, 
eu ousei retornar do nada, 
ousei retornar ainda.

Abandona, ó rei, abandona 
o abono de qualquer cona 
além do sangue e da queixa. 
Cerca a tua casa e a mura 
com o suor da tua estatura, 
e deixa o remorso, deixa-o!

Senhor do teu sofrimento, 
vai-te com o diabo e o vento, 
vai-te com a noite e o monte. 
E fala, ainda que mudo, 
que, do nada, igual a tudo, 
sobre ambos nasces. E põe-te!

Elimina todo se
da pretensão de existir 
na existência que é demérito, 
e no não haver nascido 
elimina-te existido, 
elimina-te pretérito!

Eliminar o talvez.
Não saber dia, hora ou mês, 
não saber até o minuto 
em que me vim sendo feito 
plantando a morte no peito 
e o espinhaço no meu fruto.

Por que o vemeversoverbo
da herbívora erva que eu erbo 
no meu plantio masculino, 
inverte o chão do seu galho 
arrancado do assoalho 
repicando como um sino?

Ter olhos-Deus! olhos-sóis
tem-no o Deus que cego a sós, 
tem-no o horizonte a pôr-se 
como colírio em dordolhos, 
tem-no quem me olha nos olhos 
como se cego eu já fosse!

Ah!, se a pedra me fizesse 
fazer-me cobrir quem desce 
à região do ser meu se, 
para não haver nascido 
ou o houvesse enfim já sido 
sem que eu dissera: nasci!





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Fila indiana


Um atrás do outro, atrás um do outro,
ano após ano, ano após outros,
minuto após minuto, século
após séculos, continuam

(a conduzir seus madeiros 
na perícia dos próprios dramas)

um atrás do outro, atrás um do outro,
ano após ano, ano após outros,
minuto após minuto, século 
após séculos, e de novo

um atrás do outro, atrás um do outro,
até a surdez final do pó.


De O Calcanhar do Humano (1981)





A sentença


Ó solidão, minha mãe
em toda parte do corpo,
meu escaler sem esperança
no oceano dos naufrágios.

Só as árvores estão vivas
no meu espírito que é morto.
Ó sinos, pombas errantes
no bronze da eternidade!

Remai, tempo de amargura,
às praias sem amanhã.
Ó solidão, minha mãe,
medusa erguida sem pai.





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Balança comercial


Troco sóis pelas naus,
os são pelos loucos troco,
na embriaguez com que soco
minha fúria no meu caos.

Tudo é uma questão de troca:
noves fora, restam nove,
até que outro alguém nos prove
que Deus é um dente sem broca,

que Deus é um maxilar 
independente do alvéolo
tal como independente é o 
ser do seu próprio estar.

Onde estamos não nos cabe,
onde estamos não comporta
a nossa alma que é uma morta
que do corpo nada sabe.

Ó desejo para fora
a romper-nos desde o dentro!
Ah, sairmos do nosso centro
para sempre e desde agora!

Abandonarmos casca e ovo,
abandonarmos a casca,
é um desejo que nos lasca
para quebrar-nos de novo.

Sermos gema, sem ser clara!
Sermos o Ser que É, não o que é
uma coisa chã e qualquer
nesta cara, a mesma cara!

Termos olhos, que são dois,
termos olhos, só dois a esmo:
troco tudo por uns bois
e até a alma comigo mesmo!

Troco tudo, como troco,
se trocar eu me pudera,
esta verdade quimera
do sonho com que me soco.


De O Signo das Tetas (1984)





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Prece à boca da minha alma


Não te transformes em bicho,
ó forma incorpórea minha,
só porque animal capricho
perdeu o humano que eu tinha.

Guarda, do animal, o alheio
esquecimento. E somente.
Mas lembra aquele outro seio
que te nutriu a boca e a mente.

E recorda, sobretudo,
que não babas ou engatinhas,
a não ser quando te escuto
pelos becos, dentre as vinhas.

Vive como um homem morre:
em solidão e na esperança.
guardando a fé que socorre
em mim, semivelho, a criança.

Mas não te tornes em bicho,
nem percas o ser humano,
só porque a tara (ou o capricho)
deu-me este existir insano.

De Do Eterno Indeferido (1971)



domingo, 17 de agosto de 2008

Olhar Cinzento [© DE João Batista do Lago]

Olhar Cinzento



© DE João Batista do Lago



e depois de tanta confusão

deram-me descansos os mestre

aí então pude olhar a janela do meu quarto

deu-me a impressão da porta de um cofre

cá dentro eu-segredo me guardo

e do outro lado da janela

até onde meus olhares se vão

não há revelações

lá fora está minha imagem vendo os quintais

e neles as leiras das dores

e os montes de misérias quantas

e tantas... e tantas e quantas

jorrando o pus

dos desesperados

vistos pelos meus olhos de olhares cinzentos

de um dia claro e ensolarado

melhor mesmo é ficar aqui dentro guardado

fechado no meu cofre

comendo palavras

amargas com doce de marmelada

o resto?

É só uma cagada

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Princípio, Meio e Fim [© DE João Batista do Lago]

Princípio, meio e fim

© DE João Batista do Lago


disse-me el diablo:
- rezo diariamente para o deus
peço encarecidamente
contritamente
que me livre de ti
não te o quero aqui no tártaro...
vai de retro
vai
vai
vai
não me corrompas o inferno
não quero o caos administrado


...então voltei ao sagrado
disse-me ele:
- penas como quiseres
entre céus e terras (e)
procuras teu reino e trono
acima e abaixo do mar já têm donos


manifesto:
- absurdo
como não ser como eles
como não ter poderes
vou mostrar a ambos
não sou refém da minha ambição
serei maior que os dois
terra terei por redenção


agora os dois me suplicam
el diablo: - alma alguma me quer agora
acabaram-se os encantos do tártaro...
o sagrado: - deixe-me os anjos e os santos
não os roube...
ambos então se ajoelham:
- poeta, perdoai nossos pecados
vem-nos completar a trindade
nem o uno
nem o outro
sejamos três: alteridade 

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Poesia do Aliterado [© DE João Batista do Lago]


POESIA DO ALITERADO



© DE João Batista do Lago



meu amigo

teu verso (in)criado é reino

linguagem de ausente fala

vasos de flores sobre túmulos



tua cabeça de burro

tua pela de leão

\o/

vontade tanta – pra quê?



tuas leiras de frases

tuas montanhas esquizofrênicas

tremeluzir megalomaníaco

esconde sob pele de leão

ouro Equus asinus



tua crina

dna de escuridões

adorna

denuncia

falencia

caixa de pandora

vontade tanta

esperança tanta

pra quê?



teu jardim

comercia excremento

dizes de tudo – o tempo todo –

novos tempos

tu regas (com)paixão

teu é catacumba

tua miséria

entoa tua valsa de sorte



tua vida atoa

teu carnaval difuso

teu desfile de verborreia

não consegue essência do leão

tua eterna perseguição: \o/



teu pedido

será configurado

grafado

regristrando eternidade

\O/

sob pele de leão

esquecimento

solidão

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Gênese da Morte

GÊNESE DA MORTE


© DE João Batista do Lago


Ó criatura iluminada da minha existência

Vens a mim com tua soberania imaculada (e)

Viajemos pelos túneis diversos dos tempos

Que nos revelam o espaço de novas moradas


Vens, ó doce criatura, em majestosa carruagem

Traze contigo as jovens filhas do Sol

Para podermos atravessar o mágico portal

Que nos levará à eqüidade voluptuosa do fogo eterno


Vens e traze contigo o fogo do deus Sol

Para queimarmos nosso tempo invernoso

Para que eu não retorne às casas noturnas

Onde só a escuridão e o sono são companheiros


Vens, ó santa criatura, e atravessemos os umbrais

Ainda que eles nos queiram impingir as dores

Dores do parto que haveremos de fazer (e assim)

Quebremos os grilhões de amores infaustos


Vens, ó irmã gémea, vida e morte do meu ser

Filha, como eu, do Oráculo do Saber

Templo que tudo principia – e finda! –

Casa do instante, senhor de toda democracia


Vens, ó espírito do minha alma,

Viver, não é preciso não!... Morrer toda Necessidade!...

Necessidade do Princípio sem início... sem fim

Sem as correntes que sufocam toda Verdade


Vens, enfim, ó bela e santa Morte!

Gruda-me ao peito e me carregas ao seio

Quero contigo sorver do vinho da Virtude

Quero contigo embriagar-me nas vinhas da Justiça

domingo, 10 de agosto de 2008

BOM DIA, PAI!

DE Mário Lincoln Félix

Bom dia, saudades.
Pensava eu todas as vezes que telefonava nesta data.
Mas desta vez o telefone não atendeu...

E o que vamos almoçar hoje?
Gritava da porta de entrada.
Ele, lá do fundo do corredor sorria.
Hoje seu sorriso é só lembrança.

Ficávamos horas conversando na mureta da casa,
após o almoço. Ele me ensinando a vida.
Eu aprendendo a viver...
Mas hoje, suas palavras restam em meu coração.

Peixe-pedra cozido (ensopado) com arroz branco.
Fim de domingo, um abraço apertado e um
- até amanhã...
Um até amanhã, mesmo. Deus, desta vez,
decide por mim!