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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

PRELÚDIO


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PRELÚDIO

 

© DE João Batista do Lago

 

Sei-te senhor da sabedoria

Sei-te ordenador das luzes

Sei-te fonte de toda caloria

 

Sabes tão pouco do meu ódio

Sabes tão pouco da praga que te jogo

Quando surges, a leste, no teu exórdio:

Ladras manhãs que me roubam.

 

Prefiro teu epílogo quando queda no oeste!

 

Neste instante todas luzes brilham

Todas as estrelas cintilam e bailam sob os telhados

Todos os astros se acomodam

 

É quando surge minha aurora:

Desnuda!

Voa em minha direção e me abre os braços

- e as pernas! –

E num só enlaço me leva ao mais profundo dos mundos

Sol de todas as fontes de felicidades...

 

Mesmo que na manhã seguinte renoves teu discurso

- ainda assim –

Aguardarei o poente da tua sabedoria

Donde surgirá em beleza esplêndida

Nua

Carnuda

Desnuda

Trazendo-me todos os louvores e augures

A mais bela amante da minha alegoria...

 

(E cantamos na inteira noite o prelúdio das cigarras!)

 

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Nauro Machado

POESIAS DE NAURO MACHADO



Apenas uma Coisa


Existe amor?
Palpável como o dia,
como a matéria com que é feito o objeto 
chamado mesa, catedral ou baço 
nitrindo em tantas coisas?

Como amar
esta incorpórea substância carnal, 
este lampejo de chão no infinito? 
Existe amor?

Palpável como a terra? 
Debaixo ou sobre a terra, ainda carne, 
algum finado saberá do amor, 
essa chama votiva a brilhar ainda? 
Amou Torquato a Maria? Amou deveras? 
Digam-nos os anjos corcundas do além, 
a ave agoureira ao céu crucificada, 
o revoar de asas na papal coroa.
Amou Torquato a Maria, ainda carne? 
Ama Maria a esse pó apenas nome 
legado aos filhos como letra morta, 
como moeda gasta em mão mendiga? 
Chupando um dedo só, o amor se alimenta.





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Como te massacraram, ó cidade minha!
Antes, mil vezes antes fosses arrasada 
por legiões de abutres do infinito vindos 
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio 
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios), 
a seres, ó cidade minha, pária da alma, 
esse corredor de ecos de buzinas pútridas, 
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro, 
que sem destino certo, exceto o do destino 
cumprido por estômagos de usuras cheios, 
por bailarinos bascos sem balé nenhum, 
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos, 
por úteros no prego dos cachos sem flores, 
por proxenetas próstatas de outras vizinhas, 
ou por desesperanças dos desenganados, 
conduzem promissórias, anticonceptivos, 
calvos livros de cheques e de agiotagem, 
esses lunfas políticos que em manhãs — outras 
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas, 
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver. 
Se Caim matou Abel e em renovado crime 
Abel espera o dia de novamente ser 
assassinado em cunha de rota bandeira, 
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer 
da terra podre e azul de água e cotonifícios? 
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas 
de sapatos humanos mendigando pés, 
de vestidos humanos mendigando peitos, 
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia, 
blasfemam as fanfarras de súbito mudas 
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.





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O Parto


Meu corpo está completo, o homem - não o poeta.
Mas eu quero e é necessário 
que me sofra e me solidifique em poeta, 
que destrua desde já o supérfluo e o ilusório 
e me alucine na essência de mim e das coisas, 
para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro, 
trazer-me à tona do poema 
com um grito de alarma e de alarde: 
ser poeta é duro e dura 
e consome toda
uma existência.





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Maldita a vida me seja, 
três vezes maldita seja 
a vida que me desastra 
e que por ser-me finita, 
três vezes seja maldita 
e amaldiçoada madrasta.

Quem me fez como um qualquer, 
dormindo aonde estiver, 
saiba deste desprazer, 
para sempre e desde saiba, 
para que o seu Ser não caiba 
na pequenez do meu ser,

que eu não pedi para estar 
com minhas pernas no andar, 
com minha emoção a sentir 
este universo que tapa 
a minha boca num tapa 
e a minha língua sem Ti,

essa coisa que fede a iodo, 
como a água do mar ou do 
envelhecimento o rim, 
essa coisa que derrama 
seu púbis velho de chama 
a extinguir-se quase ao fim,

corpo de Deus! Corpus Christi! 
Viste-O algum dia? Tu O viste 
sequer um dia como tu? 
Integral e à dor exposto, 
desde o cio ao suor do rosto, 
desde impotente até nu?

Os meus membros são crepúsculos! 
São sangue e iodo os meus músculos, 
é iodo e sangue a minha cruz. 
Por que não nasci não sendo? 
Por que, ao amanhecer, acendo, 
noutra treva, cega luz?

Se além da terra existe ar, 
se além da terra ainda há 
por menor que seja, um seja, 
como à noite volta o dia, 
como, ao corpo, o que o procria, 
como, em mim, meu ser esteja!

Dentro ou fora, qual gaveta, 
para que, em mim, o ser meta 
quem, em mim, é este meu ser, 
olho, em volta, à minha volta, 
e olho nada — só o que solta 
de qualquer um: quem ou o quê?

Nada é, pois tudo se sonha. 
E se alguém me falar: ponha 
tudo o que lhe resta, e resta 
no que, ao pôr-se, se me põe, 
para que em mim meu ser sonhe, 
vivo morto — e a morte empesta!

Como dar à vida pôde 
o nada ser que sou de 
outro feito pelo ser?
De outro ser, igual a mim,
mas de outro início a outro fim, 
noutra vida até morrer?

Ó envelhecer do meu estar! 
Da leitura de Balzac, 
de La Comédie Humaine, 
se passaram tantos anos 
nos malogros desenganos, 
sem disfarce ou mise-en-scène.

Bela Eugénie Grandet:
sois lembrança a anoitecer 
pelas tardes do meu Carmo, 
quem me traz a quem não sou 
na usura do pai Goriot 
que me a mim dá, para dar-mo

no meu duplo a ser mais dois, 
quais búfalos que são bois, 
ao mar meu a ser mais mar de 
ontem que ao ser-te, alma, foi-te, 
nas noites que são mais noite, 
nas tardes que são sem tarde.

Só me lembro das andorinhas, 
que hoje são luas-vinhas 
que iam e vinham às seis, 
só me lembro das sequazes 
na imprecisão de alguns quases, 
na distância de vocês!

Róseas ruas da memória, 
róseas ruas hoje escória 
que a soçobrar mais me sobe, 
afundai-me na lembrança 
hoje cravos da criança 
que meu cadáver descobre.

Como, à noite, acendo a lâmpada, 
para imitar (rampa da 
noite) uma inútil manhã, 
como o como que mais como, 
assumo, na idéia, o pomo 
da primitiva maçã.

Assumo o dia original.
Nascimento à morte igual, 
nascimento em morte assumo 
nesta página onde, em branco, 
minha vida inteira arranco 
do nada em que subi. E sumo.

E sumo a sós. Mas prossigo:
"na idéia é bem maior o trigo
que na boca o próprio pão, 
na idéia janto a sós, comigo, 
o pão real que mastigo 
feito de imaginação".

Azul manhã em contumácia! 
Negra noite, azul, te amasse 
a idéia sem pensamento, 
te amasse a própria Idéia 
reduzida a uma hiléia 
sem ar, floresta, rio, vento.

Locador de um condomínio 
frustrador de um hímen híneo, 
frustrador de um hímem são, 
locador que loca um louco, 
de carne e ossos sou reboco 
deste barro em maldição.

Tudo é farsa, menor dor. 
Sou, em mim, o que me sou 
desde o ventre que me fez. 
E contemplo a arraia, e raia 
dela, como de uma praia, 
a noite toda. Ei-la aqui. Eis:

andaime, sucata, ferro, 
vagido, vagina e berro, 
viatura e papelório, 
passa tudo, e é a viatura 
conduzindo à sepultura
meu ser morto. E sem velório.

Pois viu a terra e além bebeu-a, 
pois viu o tempo e disse: é meu, à 
solidão cerzindo a roupa 
onde, se me dispo, visto 
o sexo nu de algum Cristo 
que, despido, não me poupa.

Dez anos de coito cego 
são as metáforas que lego 
à solitária da escrita, 
aonde não chega ninguém 
exceto o vazio que vem 
de uma montanha infinita.

Ao ouvir da tarde: fracasso!, 
conquanto, vergando, os braços 
dissessem: pára, enfim finda! 
e morre, ó alma desgraçada, 
eu ousei retornar do nada, 
ousei retornar ainda.

Abandona, ó rei, abandona 
o abono de qualquer cona 
além do sangue e da queixa. 
Cerca a tua casa e a mura 
com o suor da tua estatura, 
e deixa o remorso, deixa-o!

Senhor do teu sofrimento, 
vai-te com o diabo e o vento, 
vai-te com a noite e o monte. 
E fala, ainda que mudo, 
que, do nada, igual a tudo, 
sobre ambos nasces. E põe-te!

Elimina todo se
da pretensão de existir 
na existência que é demérito, 
e no não haver nascido 
elimina-te existido, 
elimina-te pretérito!

Eliminar o talvez.
Não saber dia, hora ou mês, 
não saber até o minuto 
em que me vim sendo feito 
plantando a morte no peito 
e o espinhaço no meu fruto.

Por que o vemeversoverbo
da herbívora erva que eu erbo 
no meu plantio masculino, 
inverte o chão do seu galho 
arrancado do assoalho 
repicando como um sino?

Ter olhos-Deus! olhos-sóis
tem-no o Deus que cego a sós, 
tem-no o horizonte a pôr-se 
como colírio em dordolhos, 
tem-no quem me olha nos olhos 
como se cego eu já fosse!

Ah!, se a pedra me fizesse 
fazer-me cobrir quem desce 
à região do ser meu se, 
para não haver nascido 
ou o houvesse enfim já sido 
sem que eu dissera: nasci!





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Fila indiana


Um atrás do outro, atrás um do outro,
ano após ano, ano após outros,
minuto após minuto, século
após séculos, continuam

(a conduzir seus madeiros 
na perícia dos próprios dramas)

um atrás do outro, atrás um do outro,
ano após ano, ano após outros,
minuto após minuto, século 
após séculos, e de novo

um atrás do outro, atrás um do outro,
até a surdez final do pó.


De O Calcanhar do Humano (1981)





A sentença


Ó solidão, minha mãe
em toda parte do corpo,
meu escaler sem esperança
no oceano dos naufrágios.

Só as árvores estão vivas
no meu espírito que é morto.
Ó sinos, pombas errantes
no bronze da eternidade!

Remai, tempo de amargura,
às praias sem amanhã.
Ó solidão, minha mãe,
medusa erguida sem pai.





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Balança comercial


Troco sóis pelas naus,
os são pelos loucos troco,
na embriaguez com que soco
minha fúria no meu caos.

Tudo é uma questão de troca:
noves fora, restam nove,
até que outro alguém nos prove
que Deus é um dente sem broca,

que Deus é um maxilar 
independente do alvéolo
tal como independente é o 
ser do seu próprio estar.

Onde estamos não nos cabe,
onde estamos não comporta
a nossa alma que é uma morta
que do corpo nada sabe.

Ó desejo para fora
a romper-nos desde o dentro!
Ah, sairmos do nosso centro
para sempre e desde agora!

Abandonarmos casca e ovo,
abandonarmos a casca,
é um desejo que nos lasca
para quebrar-nos de novo.

Sermos gema, sem ser clara!
Sermos o Ser que É, não o que é
uma coisa chã e qualquer
nesta cara, a mesma cara!

Termos olhos, que são dois,
termos olhos, só dois a esmo:
troco tudo por uns bois
e até a alma comigo mesmo!

Troco tudo, como troco,
se trocar eu me pudera,
esta verdade quimera
do sonho com que me soco.


De O Signo das Tetas (1984)





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Prece à boca da minha alma


Não te transformes em bicho,
ó forma incorpórea minha,
só porque animal capricho
perdeu o humano que eu tinha.

Guarda, do animal, o alheio
esquecimento. E somente.
Mas lembra aquele outro seio
que te nutriu a boca e a mente.

E recorda, sobretudo,
que não babas ou engatinhas,
a não ser quando te escuto
pelos becos, dentre as vinhas.

Vive como um homem morre:
em solidão e na esperança.
guardando a fé que socorre
em mim, semivelho, a criança.

Mas não te tornes em bicho,
nem percas o ser humano,
só porque a tara (ou o capricho)
deu-me este existir insano.

De Do Eterno Indeferido (1971)



sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Vários autores

CorpusJose Ignacio Prieto de Pico - El grito
El grito por Jose Ignacio Prieto de Pico.


A argila
Carne que perambula
Vermes – e alma –
Só tornará calma
Se argila tornar Ser

O barro não morre o corpo
Sedento de espírito vira anti-corpo!

E quando a morte se dera
Na alma do corpo que se fizera
Verás desta vida apenas quimera

Santificada seja a morte que me retorna à vida da terra!

Somente lá estarei concluído
Somente lá jamais serei vencido
Somente lá terei a paz sem guerra

 

João Batista do Lago

Heroínas

Cassandra

 

Já fui Ceci
envolta em plumas e penas.
O sonho de Peri.
Vivi delicias plenas

e suplícios,
transvertida em Lúcia.
Lucíola e seus
vícios.

Ressaca tomou-me os olhos
de Capitu.
Nadei em ondas revoltas.
Iracema de Caramuru.

Cabelos negros asa de graúna,
lábios de mel.
Nos confins do pampa.
Coxilha e céu.

Fui Ana Terra.
Fui Bibiana,
e no sertão Tereza.
Sempre Tereza...
Cansada de Guerra.

 

Sônia (Anja Azul)

 

Perdidos e achados num convés
Así será por Maria Eugenia Sampaoli
Así será por Maria Eugenia Sampaoli

Hei fantasma não quero mais brincar
Que graça tem brincar de fantasma?
Vento morno, esconde-esconde,
Quando minha vontade é de voar
Voar sete saias de alma
E sentir o coração disparar

Larguei esse baú no fundo das águas
Cansei desse baile de máscaras,
Dessa música de fundo, fundo de mar,
Das mil e uma cartas sem respostas,
E desse seu, apenas, conjugar de verbos

levo na mão a palma
-metade de um mapa-
Carrego o vento nos cabelos,
O olhar enigmático das fadas,
E pra semear, o amor entre os dedos

Trago as asas de um sonho que brotou nas minhas costas,
As flores de março, quadris da floresta,
Cravejado no coração da mata,
E do acaso as longas pernas

Abigail Brasil

 

Heloisa B.P.

*PENSEI QUE SABIAM*Aug 28, '08 12:09 AM
for everyone

[Imagem recolhida na NET. Se ferir alguns interesses autoriais, retirarei com minhas desculpas.]

VERSOS DISPERSOS
ANVERSOS/"PERVERSOS"

PERDIDOS NA NOITE DA MINHA
ALMA SEM COR
_SEM RUMO_
PERDIDA NA DOR!
................

Pensei que sabiam
Como me doi, mais que dor de doenca,
Sentir reinar no meio de vos
Uma estupida desavenca!

Pensei que sabiam
Como vos quero, amando-se
SEMPRE! E, assim,
Do mesmo modo, de quando eram criancas!

Pensei que sabiam
Quao dolorido
Meu coracao tem vivido
Que me interrogo, como tem ele sobrevivido!?…

Pensei que sabiam
Que nao sao os bens materiais
Que me movem e, sao mais valia;
Mas sim, vosso Amor e a Paz do dia a dia!

Pensei que sabiam
Que nao me interessam vaidades e “honrarias”
Mas, sim VOSSO SORRISO
Dando-me os BONS DIAS!

Pensei que soubessem
Que dou preferencia a minha morte
Se me derem por “vida”
O espelho da vossa intolerancia!

PENSEI QUE SABIAM
QUE, HOJE, MEU PIOR MAL
NAO E’ VELHICE E POBREZA;
MAS , OPTAREM POR(ou)FINGIR, NAO SE AMAREM

_NAO, NAO QUERO ACREDITAR!

_PENSEI QUE SABIAM,
COMO ME DOI, MAIS QUE A DOR DA DOENCA,
SENTIR, OU PRESSENTIR,
REINAR, ENTRE VOS, UMA ESTUPIDA DESAVENCA_!

_NAO, NAO QUERO ACREDITAR!
Contudo, eis o caminho mais curto, para minha vida ACABAR_!

_NAO!_NEGO-ME A ACREDITAR_!
………………………………
.................
Escrito em 27 de Agosto de 2008.
[Noite_MAIS NEGRA QUE A NOITE_!]

Bath.
H.

Jaime CARDONA HERNÁNDEZ






Jaime  
CARDONA HERNÁNDEZ 


ME DUELE LA PATRIA

Me duele la patria,
La patria proscrita,
La que le arrancaron
Humanos derechos,
La que no conocen los acaudalados
La que siempre paga los impuestos caros,
Que nunca la educan por falta de plata
Ni salud recibe, ni tierra, ni casa.
De quien sólo esperan el feudo cumplido
La que sangra y gime y pide justicia
Sin ser escuchada, sin ser atendida.
Esa que recorre ciudades y aldeas
Que acaso le queda siquiera esperanza
Porque con la guerra ni eso le han dejado.
Lo que sí ha crecido, son los cementerios,
Discapacitados se cuentan por miles,
Huérfanos y viudas, desaparecidos,
Las cárceles llenas, cientos de mendigos
Hurgan las basuras buscando un mendrugo
Para tan siquiera entretener la vida
Esa que la forman los que se quedaron
Sin patria y en ella muriéndose de hambre
Formada por niños tan flacos y pálidos
Que sólo los ojos le quedan brotados
De mirar al mundo cruel al que llegaron.
Me duele la patria.
¡La patria proscrita!

DESPLAZADOS

Dejaron sus casas, sus casas queridas,
Salieron huyendo, tristes, afligidas,
Eran las familias que, despavoridas,
Se fueron de noche por salvar sus vidas.
Solos van en marcha, parecen fantasmas,
Ella y él, tres hijos, y también el perro
No dicen palabra, se han quedado mudos,
Tan sólo se miran, sollozan, suspiran.
Esto les ha dado en pago la vida
Dejando en sus almas profundas heridas.
Él, piensa, en el pueblo quizá nos reciban.
Ella, piensa en ellos, qué será sus vidas.
Ellos van soñando la ciudad impía,
Nos dará su halago, nos dará alegría,
Sin saber lo infame de su fantasía
La ingrata perfidia que en ella se anida.
Hasta el perro piensa, cándido, inocente,
Allá habrá perrillas que le den su aroma.
No sabe el incauto que allá no se asoma
Sino a la ventana de su amo, la mona.
Amanece un día de desdicha suma,
Sin café, ni arepa para el desayuno,
No hay ni agua, pues aquí es vendida
Las aves no bajan de los gallineros
Los huevos son caros, son blancos y hueros.
La casa ha quedado sin amo ni perro,
Todo es desolado, con gran desconcierto,
No se ven sembrados de maíz o fríjol,
La huerta no tiene flores ni hortalizas.
La campana alegre del pico y la azada
No ha vuelto a escucharse.
Lo que se oye ahora es sí la metralla,
Y el cañón terrible de los militares
Y de la guerrilla.
Qué pena que el odio cambiara la tierra,
En la que auguraban futuro feliz,
Dejando en las almas de los que miramos
Tristeza, abandono, querella y pavor.

LA CIUDAD

Enoc, así puso Caín a la primera,
Ciudad que construyera su genio intelectual
Y Lamec, el pariente del que fuera maldito
Le puso la cizaña y así comenzó el mal.
Es la ciudad ahora, lo digo sin dudar,
Productora del crimen, miserias y maldad;
Fábrica de basuras, de desechos y más
Cosas que ya no hay donde irlas a
amontonar.
Rodéanla tugurios, circúndala miseria,
Aunque su centro ostente belleza
empresarial.
Las torres que se elevan, airosas sin igual
Parece que clamaran por justicia social.
Despreciamos el campo tan sano, sin pensar,
Dejamos el riachuelo que parecía cristal,
El verde de los campos de frescura especial
Por el concreto duro que nos vino a asfixiar.
Aquí nos seleccionan, los de aquí y los de
allá,
Aquellos se merecen un lugar especial.
Planeación lo requiere, que se vea la ciudad,
Ordenada y conforme, con la necesidad.
No importa si los muchos se van quedando
atrás
O los que tienen hambre se les siente llorar,
Lo primero es primero, así es la humanidad
El progreso, imposible, no se puede parar.

biografia: 
Jaime CARDONA HERNÁNDEZ

Nacido en el Municipio de Pueblo Rico, Antioquia en el año 1935.
Desde sus primeros años amó la lectura, comprando
frecuentemente revistas del Readers Digest y leyéndolas a la luz de
una vela.
Fue luego soldado de la república y unos años más tarde conformó
su hogar con la señora Teresa Quintana, del que nacieron cinco
hijos.
Radicado en el Municipio de Itaguí desde hace más de 40 años, trabajó
como obrero textil hasta alcanzar casi su jubilación, negociando
ésta para atender el llamado de Dios y dedicarse a la labor pastoral
en una iglesia cristiana.
Teniendo en su corazón el deseo siempre vivo de escribir, en sus
últimos años se ha dedicado a este arte, que más que ello, es su
forma de expresar cómo ve su entorno, como siente y como vive su
cotidianidad.
Estos sus poemas, son un legado a su familia y a su gente y son
finalmente , y lo más importante, una expresión de gratitud a Dios
quien le ha dado todo, por quien es y por quien existe.

Recientemente ha publicado, con apoyo de la Alcaldía del Municipio de Itaguí, su libro: 'TRASCENDENCIA' donde compila 246 de sus poemas inéditos.

João Poeta do Brasil

A Carne


© DE João Batista do Lago


Há monstros!
Monstrengos há!

Seus caninos afiados
feitos presas de javalis
vislumbram o ataque fatal...

Mas, depois de devorada a tartaruga
percebem o grande mal que a si fizeram:
suas carnes estão sendo comidas
pouco-a-pouco são corroídas
nos palácios dos seus ancestrais...

Paradoxo do mal
Gabali não mais lhes dará abrigos!

O ventre que se lhes gerara recusa a imolação
Será o javali santo ou assassino?

Na pedra da imolação
Terá que comer seu própiro ventre
Pensou engravidar-se da tartaruga
Mas, fez-se apenas oblação

Será o javali santo ou assassino?

domingo, 24 de agosto de 2008

Marilda Confortin

A Invasora


© DE Marilda Confortin



Ninguém escolhe ser poeta.

É ela, essa herege,

quem elege ao bel prazer,

aquele que irá por ela morrer em vida,

ou nela eternamente viver.



É ela, essa divindade inconsequente,

quem invade sorrateira a mente

e insana deposita seus ovos

na chocadeira humana.

Gerá-la, é uma profunda agonia.



É um ser-estar em carne viva

num inferno escuro.

E o pior de tudo,

é que não há sincronia

entre o poeta e a poesia,

entre o recipiente e o conteúdo.



O que há é um descompasso,

uma falha de espaço

entre o tempo do poeta

e o tempo da poesia.



Há uma anomalia

entre o que ele é

e o que ele cria.

Não, não se enganem...



Não há um elo

entre criador e criatura.

O que há,

é um duelo,

uma (a)tensão constante,

porque a qualquer instante,

um pode trair, ferir,

parir

ou abortar o outro.

sábado, 23 de agosto de 2008

Infância

 Infância

 

                                     Para  meu  pai              

 

 

 

 

 

 

Lá vai a Dona Biloca levando uma corvina...

Levei uma surra porque peguei um ovo no galinheiro dela

e disse pra minha mãe que achei na rua...

Lá vem a Odair e o Udinho...

eu sei que eles querem brincar na piscina que eu fiz  sooozinho..

-- Ei Lelo, lá  vem o Seu Badico lavar os cavalos na praia...

-- Eu sei, mas depois ele vai  encher a carroça de tainhas,

vai pôr folhas de bananeira em cima  e vai vender lá em Medeiros.

--Paaaai!... deixa eu ir com o senhor lá em Medeiros???.

Como eu gosto de lavar o Sanho... ele é tão mansinho...

-- Pai... o senhor já nadou até a ilha?

-- Pai... depois o senhor me leva até o fundo?

--Pai... eles vão pôr de novo a rede hoje?

-- Pai... depois vamos tomar garapa lá no Seu Bebé?

 

Infância... a indelével imagem da vida

o território mágico da alma

lembrança viva e peregrina que  flutua pelo tempo.

Ah! essa salgada saudade dos braços fortes de meu pai

a levar-me sobre os ombros entre as ondas.

O salto, o mergulho, o torvelinho das águas

minha festa, meu delírio.

Meu mar, meu céu, meu pão de liberdade

meus sete anos correndo atrás das gaivotas

perambulando entre as canoas que chegavam

meus pés vestidos com  pantufas de espuma

a chutar seus densos flocos pelo ar.

As estrelas do mar semeadas ao longo dos meus passos

os siris entrando em seus buracos

os maçaricos andando ligeirinhos pela praia

as redes chegando lentamente com o  cardume aprisionado

arraias, bagres, cações

espadas, águas vivas, caranguejos

os pescadores repartindo os peixes agonizantes

os baiacus mortos na areia

os restos do arrastão espalhados sobre a praia

meu samburá repleto de peixinhos.

 

Ah, a canção intermitente das ondas

o poético itinerário das velas levadas pelo vento

o vôo vagabundo das  aves litorâneas

o dorso escuro dos botos surgindo de quando em quando sobre as águas.

a maré alta da tarde apagando  as marcas da manhã

a minha lagoinha lá perto da ponte

o meu mangue povoado de siris-goiá

meu pai tirando ostras

o rio desembocando lá na barra

a chegada das tainhas no inverno.

 

Ali morava minha infância

ali, e na imensurável morada do horizonte...

Meus olhos despertavam nas pálpebras entreabertas da aurora

e partiam com os mastros que sumiam na distância.

Vagavam no caminho melancólico do crepúsculo

no ocaso das tardes e na penumbra

na sedução da lua cheia sobre o mar.

Ah, Piçarras!... Piçarras!...............................

Não eras ainda esse moderno balneário

e a tua praia era somente  minha o ano inteiro.

......................................................................................

 

As velas da minha infância,

arriadas pelo tempo, já não saem pra pescar.

As redes daqueles anos,

abertas qual flor nas águas, chegam vazias do mar.

Os cardumes de tainhas,

ligeiras como corisco, já não chegam pra invernar.

As águas vivas do rio,

hoje carregam chorando,  seu veneno para o mar.

 

 

Meu manguezal de menino,

berçário de tantas vidas, foi inteiro loteado.

        Minhas canoas à vela,

poemas soltos ao vento, hoje navegam roncando.

O lago era um ovário

cujo canal dava ao rio, e tudo foi aterrado.

Progresso... que desencanto!!!

  sou um estranho nesse ninho, sou uma infância chorando.

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Ó mar, ó mar

procuro em vão meus rastros na areia

e por isso meus passos já não serão como um regresso...

Me restará, contudo, sempre  a tua eterna imagem,

tua beleza amanhecida e retocada pelo sol e pela brisa,

tuas verdes planícies que espraiam o mundo.

Resta-me o teu sabor primordial

“o sal da vida”

linfa incorruptível

ventre profundo que dia a dia reinaugura a maternidade planetária.

Restam-me tuas noites  pontilhadas pelos faróis do mundo

por Sírius, Antares,  Aldebarã...

por todo o firmamento constelado

e pelo  esplendor dos plenilúnios.

 

Volto saudoso aos meus mares

porque sempre haverá um leste e um sul magnético no meu peito

apontando-me  o encanto desses íntimos recantos.

Aqui, uma pequenina praia entre pedras e penhascos,

ali, a visão imensa da baía com seus barcos e canoas, 

além,o grito alado das plumagens que voam lentamente sobre as ondas

ao longe, o pesqueiro solitário que demanda as águas fundas.

Relembro este molhe de pedra que avança sobre o mar

do farol da barra  e  desta paisagem soberana

e da minha adolescência cruzando a nado esta corrente.

É o meu Itajaí-Açu desembocando calmamente no oceano

neste mar tão verde desta manhã de sol.

Meu olhar ancora ao longe, nos navios fundeados

e navega, mais além,  pousado no mastro esbelto de um veleiro.

 

Mar, ó mar

restará sempre o teu murmúrio a embalar o mundo

a voz inaudível das profundidades orientando a  rota dos cardumes

a tua gestação incessante de criaturas

a força imponderável das correntes

a pontualidade das marés

os teus ciclos arquétipos que sustentam a vida.

 

Mar, ó mar

basta-me hoje o que já me deste desde sempre...

a tua imensidão tatuada nos meus olhos,

verde enseada onde aportou meu lírico destino.

Esses teus encantos, as tuas extensões,  essa totalidade...

todas as tuas medidas eu quisera ter na suprema síntese dos meus versos,

para dá-la ao mundo na  expressão mais bela da poesia:

a face deslumbrante da esperança.

 

                                                            Manoel de Andrade

                                                             Piçarras-Itajaí, fevereiro de 2005 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Minha Casa Era Um Rio [© DE João Batista do Lago]

A minha casa era um rio de imensidão

Tão grande… tão grande… tão imenso 

Que todos os rios do mundo

Passavam pelo rio da minha casa

O rio da minha casa tinha algo de humano

Todas as noites ele vinha conversar comigo

Contava-me estórias mágicas… fantásticas

Dessas que a gente nunca mais esquece

Eram tantas as lendas que ele contava

E embalado pelas maravilhas eu navegava em suas águas

E nadava todo o percurso do rio que passava em minha casa

E navegava todos os rios que passam pelo rio da minha casa

A minha casa tinha um rio de águas profundas

Mansas, calmas, perenes e cristalinas

Águas que me abraçavam, que me acariciavam

Que me beijavam e que me amavam afetuosamente

O rio da minha casa quando me via triste

Chamava todos os rios do mundo

E dançavam ciranda ao meu redor

Até que vissem de novo um sorriso no meu rosto

Se por ventura chorasse de fome

O rio da minha casa e todos que passavam por ela

Pescavam o peixe mais belo

E me alimentavam até cessar a fome

Quando em noites escuras e sem luares

Noites que nos infestam de fantasmas

O rio da minha casa murmurava uma canção

E trazia com ela as mais belas princesas

Ah! O rio da minha casa não me deixava em solidão

Brigava com papai… ralhava com mamãe

E enchia suas almas de todos os cuidados

E os transformavam em verdadeiros espíritos de proteção

Assim era o rio daquela minha casa

Hoje vivo ao léu na minha caverna

A minha casa que era um rio de felicidade

Agora nada mais é que pântano. É cidade

Quantas saudades tenho daquele rio

De um rio que juntava todos os rios imensos do mundo

Do rio que passava na minha casa

Da minha casa que era o barco da felicidade